terça-feira, 26 de julho de 2011

OS DEFICIENTES MENTAIS E A LOUCURA


371 A opinião de que os deficientes mentais teriam uma alma
inferior tem fundamento?
– Não. Eles têm uma alma humana, muitas vezes mais inteligente do
que pensais, que sofre da insuficiência dos meios que tem para se manifestar,
assim como o mudo sofre por não poder falar.
372 Qual o objetivo da Providência ao criar seres infelizes como
os loucos e os deficientes mentais?
– São Espíritos em punição que habitam corpos deficientes. Esses
Espíritos sofrem com o constrangimento que experimentam e com a dificuldade
que têm de se manifestarem por meio de órgãos não desenvolvidos
ou desarranjados.
372 a É exato dizer que os órgãos não têm influência sobre as
faculdades?
– Nunca dissemos que os órgãos não têm influência. Têm uma influência
muito grande sobre a manifestação das faculdades; porém, não as
produzem; eis a diferença. Um bom músico com um instrumento ruim não
fará boa música, mas isso não o impedirá de ser um bom músico.
* É preciso distinguir o estado normal do estado patológico (3). No estado
normal, a moral (4) suplanta o obstáculo que a matéria lhe opõe. Mas
há casos em que a matéria oferece tanta resistência que as manifestações
são limitadas ou deturpadas, como na deficiência mental e na loucura.
São casos patológicos e, nesse estado, não desfrutando a alma
de toda a sua liberdade, a própria lei humana a livra da responsabilidade
de seus atos.
373 Qual pode ser o mérito da existência para seres que, como
os loucos e os deficientes mentais, não podendo fazer o bem nem o
mal, não podem progredir?
– É uma expiação obrigatória pelo abuso que fizeram de certas faculdades;
é um tempo de prisão.
373 a O corpo de um deficiente mental pode, assim, abrigar um
Espírito que teria animado um homem de gênio em uma existência
precedente?
– Sim. A genialidade torna-se às vezes um flagelo quando dela se
abusa.
* A superioridade moral nem sempre está em razão da superioridade
intelectual, e os maiores gênios podem ter muito para expiar. Daí resulta
freqüentemente para eles uma existência inferior à que tiveram e causa
de sofrimentos. As dificuldades que o Espírito experimenta em suas
manifestações são para ele como correntes que impedem os movimentos
de um homem vigoroso. Pode-se dizer que deficientes mentais são aleijados
do cérebro, assim como o coxo das pernas e o cego dos olhos.
374 O deficiente mental, no estado de Espírito, tem consciência
de seu estado mental?
– Sim, muito freqüentemente; ele compreende que as correntes que
impedem seu vôo são uma prova e uma expiação.
375 Qual é a situação do Espírito na loucura?
– O Espírito, no estado de liberdade, recebe diretamente suas impressões
e exerce diretamente sua ação sobre a matéria. Porém,
encarnado, se encontra em condições bem diferentes e na obrigatoriedade
de só fazer isso com a ajuda de órgãos especiais. Se uma parte ou o
conjunto desses órgãos for alterado, sua ação ou suas impressões, no
que diz respeito a esses órgãos, são interrompidas. Se ele perde os olhos,
torna-se cego; se perde o ouvido, torna-se surdo, etc. Imagina agora que
o órgão que dirige os efeitos da inteligência e da vontade, o cérebro, seja
parcial ou inteiramente danificado ou modificado e ficará fácil compreender
que o Espírito, podendo dispor apenas de órgãos incompletos ou
deturpados, deverá sentir uma perturbação da qual, por si mesmo e em
seu íntimo, tem perfeita consciência, mas não é senhor para deter-lhe o
curso, não tem como alterar essa condição.
375 a É então sempre o corpo e não o Espírito que está desorganizado?
– Sim. Mas é preciso não perder de vista que, da mesma forma como
o Espírito age sobre a matéria, também a matéria reage sobre o Espírito
numa certa medida, e que o Espírito pode se encontrar momentaneamente
impressionado pela alteração dos órgãos pelos quais se manifesta e recebe
suas impressões. Pode acontecer que, depois de um período longo,
quando a loucura durou muito tempo, a repetição dos mesmos atos acabe
por ter sobre o Espírito uma influência da qual somente se livra quando
estiver completamente desligado de todas as impressões materiais.
376 Por que a loucura leva algumas vezes ao suicídio?
– O Espírito sofre com o constrangimento e a impossibilidade de se
manifestar livremente, por isso procura na morte um meio de romper seus
laços.
377 O Espírito de um doente mental é afetado, depois da morte,
pelo desarranjo de suas faculdades?
– Pode se ressentir durante algum tempo após a morte, até que esteja
completamente desligado da matéria, como o homem que acorda se ressente
por algum tempo da perturbação em que o sono o mergulha.
378 Como a alteração do cérebro pode reagir sobre o Espírito
após a morte do corpo?
– É uma lembrança. Um peso oprime o Espírito e, como não teve conhecimento
de tudo que se passou durante sua loucura, precisa sempre de
um certo tempo para se pôr a par de tudo; é por isso que, quanto mais
tempo durar a loucura durante a vida terrena, mais tempo dura a opressão,
o constrangimento após a morte. O Espírito desligado do corpo se ressente,
durante algum tempo, da impressão dos laços que os uniam.
___________________________________________________

3 - Estado patológico: situação em que o organismo sofre alterações provocadas por doenças
(N. E.).
4 - A moral: o conjunto das virtudes; a vergonha; o brio (N. E.).

segunda-feira, 25 de julho de 2011

INFLUÊNCIA DO ORGANISMO


367 O Espírito, ao se unir ao corpo, se identifica com a matéria?
– A matéria é apenas o envoltório do Espírito, assim como a roupa é o
envoltório do corpo. O Espírito, ao se unir ao corpo, conserva o que é
próprio de sua natureza espiritual.
368 As faculdades ou dons do Espírito se exercem com toda a
liberdade após sua união com o corpo?
– O exercício das faculdades depende dos órgãos que lhes servem
de instrumento: são enfraquecidas pela grosseria da matéria.
368 a Assim, o corpo material seria um obstáculo à livre manifestação
das faculdades do Espírito, como um vidro opaco se opõe à livre
emissão da luz?
– Sim, é como um vidro muito opaco.
* Pode-se ainda comparar a ação da matéria grosseira do corpo
sobre o Espírito à de uma água lamacenta, que tira a liberdade dos
movimentos dos corpos nela mergulhados.
369 O livre exercício das faculdades da alma está subordinado
ao desenvolvimento dos órgãos?
– Os órgãos são os instrumentos da manifestação das faculdades da
alma; essa manifestação depende do desenvolvimento e grau de perfeição
desses mesmos órgãos, como a boa qualidade de um trabalho
depende da boa qualidade da ferramenta.
370 Pode-se deduzir que, da influência dos órgãos na ação das
faculdades do Espírito, possa haver uma relação entre o desenvolvimento
do cérebro e das qualidades morais e intelectuais?
– Não se deve confundir o efeito com a causa. O Espírito tem sempre
as faculdades que lhe são próprias. Não são, portanto, os órgãos que dão
as faculdades e sim as faculdades que conduzem ao desenvolvimento
dos órgãos.
370 a Assim sendo, a diversidade das aptidões no homem provém
unicamente do estado do Espírito?
– Unicamente não é o termo mais exato; as qualidades do Espírito,
que pode ser mais ou menos avançado, são o princípio; mas é preciso ter
em conta a influência da matéria, que limita mais ou menos o exercício
dessas faculdades.
* O Espírito, ao encarnar, traz certas predisposições, admitindo-se
para cada uma um órgão correspondente no cérebro; o desenvolvimento
desses órgãos será um efeito e não uma causa. Se as faculdades
tivessem seu princípio nos órgãos, o homem seria uma máquina sem
livre-arbítrio e sem responsabilidade por seus atos. Seria preciso admitir
que os maiores gênios, os sábios, poetas, artistas, são gênios apenas
porque o acaso lhes deu órgãos especiais, e que sem esses órgãos
não seriam gênios. Assim, o maior imbecil poderia ser um Newton,
um Virgílio (1) ou um Rafael (2), se tivesse possuído certos órgãos. Essa suposição
é mais absurda ainda quando aplicada às qualidades morais.
Assim, conforme esse sistema, um São Vicente de Paulo, dotado por
natureza desse ou daquele órgão, poderia ter sido um criminoso, e faltaria
ao maior criminoso apenas um órgão para ser um São Vicente de Paulo.
Admiti, ao contrário, que os órgãos especiais, se é que existem, são uma
conseqüência, que se desenvolvem pelo exercício da faculdade, assim como
os músculos, pelo movimento, e não tereis nada de irracional. Façamos
uma comparação simples, mas verdadeira: por meio de certos sinais fisionômicos,
reconheceis o homem dado à bebida; são esses sinais que o
tornam ébrio, ou é a embriaguez que faz surgirem esses sinais? Pode-se
dizer que os órgãos recebem a marca das faculdades.
________________________________________________________
1 - Virgílio: Poeta latino. Autor da Eneida. Viveu entre 71 e 19 a.C (N. E.).
2 - Rafael: Rafael Sanzio (1483-1520) pintor, escultor e arquiteto italiano (N. E.).

sexta-feira, 22 de julho de 2011

FACULDADES MORAIS E INTELECTUAIS DO HOMEM

361 De onde vêm, para o homem, suas qualidades morais, boas
ou más?
– São do Espírito encarnado nele; quanto mais o Espírito for puro,
mais o homem é levado ao bem.
361 a Parece resultar daí que o homem de bem é a encarnação
de um Espírito bom e o homem vicioso a de um mau?
– Sim. Mas devemos dizer que é um Espírito imperfeito, senão poderia
se acreditar na existência de Espíritos sempre maus, a quem chamais
de demônios.
362 Qual é o caráter dos indivíduos nos quais encarnam os Espíritos
travessos e levianos?
– São criaturas imprudentes, maliciosas e, algumas vezes, seres maldosos.
363 Os Espíritos possuem paixões que não pertencem à humanidade?
– Não; se as tivessem as teriam comunicado aos homens.
364 É o mesmo Espírito que dá ao homem as qualidades morais
e da inteligência?
– Certamente é o mesmo, e isso em razão do grau que alcançou na
escala evolutiva. O homem não tem em si dois Espíritos.
365 Por que alguns homens muito inteligentes, que evidenciam
estar neles encarnados Espíritos Superiores, são, ao mesmo tempo,
cheios de vícios?
– É que os Espíritos encarnados neles não são puros o suficiente, e o
homem cede à influência de outros Espíritos ainda piores. O Espírito progride
numa marcha ascendente insensível, mas o progresso não se cumpre
simultaneamente em todos os sentidos. Durante um período das suas
muitas existências, pode avançar em ciência; num outro, em moralidade.
366 O que pensar da opinião de que as diferentes faculdades
intelectuais e morais do homem seriam o produto de diferentes Espíritos
encarnados nele e tendo cada um uma aptidão especial?
– Ao refletir sobre essa opinião, reconhece-se que é absurda. O Espírito
deve ter todas as aptidões; para poder progredir, lhe é necessária uma
vontade única. Se o homem fosse uma mistura de Espíritos, essa vontade
não existiria e não teria individualidade, uma vez que, em sua morte, todos
esses Espíritos seriam como um bando de pássaros escapados duma
gaiola. O homem lamenta-se, freqüentemente, de não compreender certas
coisas, e é curioso ver como multiplica as dificuldades, quando tem ao
seu alcance uma explicação muito simples e natural. Ainda aqui, toma o
efeito pela causa; é fazer em relação ao homem o que os pagãos faziam
em relação a Deus. Eles acreditavam em tantos deuses quantos são os
fenômenos no universo, mas mesmo entre eles havia pessoas sensatas
que já viam nesses fenômenos apenas efeitos, que tinham uma única
causa – Deus.
* O mundo físico e o mundo moral nos oferecem, a esse respeito,
numerosos pontos de comparação. Acreditou-se na existência múltipla
da matéria enquanto se esteve apegado à aparência dos fenômenos.
Hoje, compreende-se que esses fenômenos tão variados podem muito
bem não passar de modificações de uma matéria elementar única. Os
diversos dons são manifestações de uma mesma causa que é a alma,
ou Espírito encarnado, e não de diversas almas, assim como os diferentes
sons do órgão são o produto do mesmo ar e não de tantas outras
espécies de ar quantos sejam os sons. Desse sistema resultaria que,
quando um homem perde ou adquire certas aptidões, certas tendências,
isso seria pela ação de outros tantos Espíritos que vieram a encarnar
nele ou que se foram, o que o tornaria um ser múltiplo, sem individualidade
e, conseqüentemente, sem responsabilidade. Também contradizem
essa idéia os exemplos tão numerosos de manifestações pelas
quais os Espíritos provam sua personalidade e identidade.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

UNIÃO DA ALMA E DO CORPO. ABORTO



344 Em que momento a alma se une ao corpo?
– A união começa na concepção, mas só se completa no instante do
nascimento. No momento da concepção, o Espírito designado para habitar
determinado corpo se liga a ele por um laço fluídico e vai aumentando
essa ligação cada vez mais, até o instante do nascimento da criança. O
grito que sai da criança anuncia que ela se encontra entre os vivos e servidores
de Deus.
345 A união entre o Espírito e o corpo é definitiva desde o momento
da concepção? Durante esse primeiro período o Espírito poderia
renunciar ao corpo designado?
– A união é definitiva no sentido de que nenhum outro Espírito poderá
substituir o que está designado para aquele corpo. Mas, como os laços
que o unem são muito frágeis, fáceis de se romper, podem ser rompidos
pela vontade do Espírito, se este recuar diante da prova que escolheu;
nesse caso, a criança não vive.
346 O que acontece ao Espírito, se o corpo que escolheu morre
antes de nascer?
– Ele escolhe um outro.
346 a Qual é a razão dessas mortes prematuras?
– As imperfeições da matéria são a causa mais freqüente dessas
mortes.
347 Que utilidade pode ter para um Espírito sua encarnação num
corpo que morre poucos dias após seu nascimento?
– O ser não tem a consciência inteiramente desenvolvida de sua existência
e a importância da morte é para ele quase nula. É muitas vezes,
como já dissemos, uma prova para os pais.
348 O Espírito sabe, com antecedência, que o corpo que escolheu
não tem probabilidades de vida?
– Algumas vezes, sabe; mas se o escolher por esse motivo, é porque
recua diante da prova.
349 Quando uma encarnação falha para o Espírito, por uma causa
qualquer, é suprida imediatamente por outra existência?
– Nem sempre imediatamente. É preciso ao Espírito o tempo de escolher
de novo, a menos que uma reencarnação imediata seja uma
determinação anterior.
350 O Espírito, uma vez unido ao corpo de uma criança e quando
já não pode voltar atrás, lamenta, algumas vezes, a escolha que fez?
– Quereis dizer se, como homem, lastima a vida que tem? Se gostaria
de outra? Sim. Lamenta-se da escolha que fez? Não; ele não sabe que a
escolheu. O Espírito, uma vez encarnado, não pode lamentar uma escolha
de que não tem consciência, mas pode achar a carga muito pesada e
considerá-la acima de suas forças. São esses os casos dos que recorrem
ao suicídio.
351 No intervalo da concepção ao nascimento, o Espírito desfruta
de todas as suas faculdades?
– Mais ou menos, de acordo com a época, visto que ainda não está
encarnado, e sim vinculado. Desde o instante da concepção, o Espírito
começa a ser tomado de perturbação, anunciando-lhe que é chegado o
momento de tomar uma nova existência; essa perturbação vai crescendo
até o nascimento. Nesse intervalo, seu estado é quase idêntico ao de um
Espírito encarnado durante o sono do corpo. À medida que a hora do
nascimento se aproxima, suas idéias se apagam, assim como a lembrança
do passado, do qual não terá mais consciência, como pessoa, logo
que entrar na vida. Mas essa lembrança lhe volta pouco a pouco à memória
ao retornar ao seu estado de Espírito.
352 No momento do nascimento, o Espírito recupera imediatamente
a plenitude de suas faculdades?
– Não, elas se desenvolvem gradualmente com os órgãos. É para ele
uma nova existência; é preciso que aprenda a se servir de seus instrumentos.
As idéias lhe voltam pouco a pouco, como a uma pessoa que sai do
sono e se encontra numa posição diferente daquela que tinha na véspera.
353 Como a união do Espírito e do corpo só está completa e
definitivamente consumada após o nascimento, pode-se considerar o
feto como tendo uma alma?
– O Espírito que deve animá-lo existe, de alguma forma, fora dele; não
possui, propriamente falando, uma alma, já que a encarnação está apenas
em via de se operar. Mas o feto está ligado à alma que deve possuir.
354 Como explicar a vida intra-uterina?
– É a da planta que vegeta. A criança vive, então, a vida animal. O
homem tem em si a vida animal e a vida vegetal, que se completam no
nascimento com a vida espiritual.
355 Há, como indica a ciência, crianças que, desde o ventre
materno, não têm possibilidades de viver? Qual o objetivo disso?
– Isso acontece freqüentemente; a Providência o permite como prova
para seus pais ou para o Espírito que está para reencarnar.
356 Existem crianças que, nascendo mortas, não foram destinadas
à encarnação de um Espírito?
– Sim, há as que nunca tiveram um Espírito destinado para o corpo;
nada devia realizar-se por elas. É, então, somente pelos pais que essa
criança veio.
356 a Um ser dessa natureza pode chegar a nascer?
– Sim, algumas vezes; porém, não vinga, não vive.
356 b Toda criança que sobrevive ao nascimento tem, necessariamente,
um Espírito encarnado nela?
– O que seria sem o Espírito? Não seria um ser humano.
357 Quais são, para o Espírito, as conseqüências do aborto?
– É uma existência nula que terá de recomeçar.
358 O aborto provocado é um crime, qualquer que seja a época
da concepção?
– Há sempre crime quando se transgride a Lei de Deus. A mãe, ou
qualquer outra pessoa, cometerá sempre um crime ao tirar a vida de uma
criança antes do seu nascimento, porque é impedir a alma de suportar as
provas das quais o corpo devia ser o instrumento.
359 No caso em que a vida da mãe esteja em perigo pelo nascimento
do filho, existe crime ao sacrificar a criança para salvar a mãe?
– É preferível sacrificar o ser que não existe a sacrificar o que existe.
360 É racional ter pelo feto a mesma atenção que se tem pelo
corpo de uma criança que tenha vivido?
– Em tudo isso deveis ver a vontade de Deus e Sua obra. Não trateis,
portanto, levianamente as coisas que deveis respeitar. Por que não respeitar
as obras da Criação, que são incompletas algumas vezes pela vontade
do Criador? Isso pertence a seus desígnios, que ninguém é chamado a
julgar.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

RETORNO À VIDA CORPORAL


PRELÚDIO DO RETORNO
330 Os Espíritos conhecem a época em que reencarnarão?

– Eles a pressentem, assim como um cego sente o fogo quando dele
se aproxima. Sabem que devem retornar a um corpo como sabeis que um
dia deveis morrer, mas não sabem quando isso vai acontecer. (Veja, nesta
obra, a questão 166.)
330 a A reencarnação é, então, uma necessidade da vida espírita,
assim como a morte é uma necessidade da vida corporal?
– Certamente. É exatamente assim.
331 Todos os Espíritos se preocupam com sua reencarnação?
– Há muitos que nem mesmo pensam nisso, nem a compreendem;
isso depende de sua natureza mais ou menos avançada. Para alguns, a
incerteza quanto ao futuro é uma punição.
332 O Espírito pode antecipar ou retardar o momento de sua
reencarnação?
– Pode antecipá-lo, solicitando-o em suas preces. Pode também retardá-
lo, recuar diante da prova, porque entre os Espíritos há também os
covardes e os indiferentes, mas não o fazem impunemente. Ele sofre, como
quem recua diante do remédio salutar que pode curá-lo.
333 Se um Espírito se encontrasse bastante feliz por estar numa
condição mediana na espiritualidade e se não tivesse ambição de
progredir, poderia prolongar esse estado indefinidamente?
– Não. Não indefinidamente. Progredir é uma necessidade que o Espírito
sente, cedo ou tarde. Todos devem elevar-se, esse é o propósito da
destinação dos Espíritos.
334 A união da alma com este ou aquele corpo é predestinada,
ou a escolha se faz apenas no último momento?
– O Espírito é sempre designado antes. Ao escolher a prova por que
deseja passar, pede para encarnar; portanto, Deus, que tudo sabe e tudo
vê, sabe e vê antecipadamente que alma se unirá a qual corpo.

335 O Espírito faz a escolha do corpo em que deve encarnar, ou
apenas do gênero de vida que lhe deve servir de prova?
– Pode escolher o corpo, já que as imperfeições desse corpo são
para ele provas que ajudam no seu adiantamento, se vencer os obstáculos
que aí encontra. Embora possa pedir, a escolha nem sempre depende
dele.
335 a O Espírito poderia, no último momento, recusar o corpo
escolhido por ele?
– Se recusasse, sofreria muito mais do que aquele que não tentou
nenhuma prova.
336 Poderia acontecer que um corpo que tivesse de nascer não
encontrasse Espírito para encarnar nele?
– Deus a isso proveria. Quando a criança deve nascer para viver, está
sempre predestinada a ter uma alma; nada foi criado sem finalidade.
337 A união do Espírito com um determinado corpo pode ser
imposta pela Providência Divina?
– Pode ser imposta, bem como as diferentes provas, especialmente
quando o Espírito ainda não está apto a fazer uma escolha com conhecimento
de causa. Como expiação, o Espírito pode ser obrigado a se unir ao
corpo de uma criança que por seu nascimento e pela posição que terá no
mundo poderão tornar-se para ele uma punição.
338 Se acontecesse de muitos Espíritos se apresentarem para um
mesmo corpo determinado a nascer, o que ficaria decidido entre eles?
– Muitos podem pedir isso. Julga-se num caso desses quem é mais
capaz de desempenhar a missão à qual a criança está destinada; mas,
como já foi dito, o Espírito já está designado antes do instante que deve
unir-se ao corpo.
339 O momento da encarnação é acompanhado de uma perturbação
semelhante à que se experimenta ao desencarnar?
– Muito maior e principalmente mais longa. Na morte o Espírito sai da
escravidão; no nascimento, entra nela.
340 O instante em que o Espírito deve encarnar é para ele solene?
Realiza esse ato como uma coisa séria e importante?
– É como um navegante que embarca para uma travessia perigosa e
não sabe se vai encontrar a morte nas ondas que enfrenta.
* O navegante que embarca sabe a que perigos se expõe, mas não
sabe se naufragará; o mesmo acontece com o Espírito: ele conhece as
provas às quais se submete, mas não sabe se fracassará. Da mesma
forma que para o Espírito a morte do corpo é como um renascimento, a
reencarnação é uma espécie de morte, ou melhor, de exílio, de clausura.
Ele deixa o mundo dos Espíritos pelo mundo corporal, assim como o
homem deixa o mundo corporal pelo mundo dos Espíritos. O Espírito
sabe que vai reencarnar, do mesmo modo que o homem sabe que vai
morrer. Mas, exatamente como o homem só tem consciência da morte
no momento extremo, também o Espírito só tem consciência da reencarnação
no momento determinado; então, nesse momento supremo,
a perturbação se apossa dele e persiste, até que a nova existência esteja
totalmente formada. Os momentos que antecedem à reencarnação
são uma espécie de agonia para o Espírito.
341 A incerteza em que se encontra o Espírito sobre a eventualidade
do sucesso das provas que vai suportar na vida é motivo de
ansiedade antes de sua encarnação?
– Uma ansiedade muito grande, uma vez que as provas dessa existência
retardarão ou adiantarão seu progresso, de acordo com o que tiver
suportado bem ou mal.
342 No momento de sua reencarnação, o Espírito está acompanhado
por outros Espíritos, seus amigos, que vêm assistir à sua partida
do mundo espírita, assim como o recebem quando para lá retorna?
– Isso depende da esfera que o Espírito habita. Se estiver onde reina
a afeição, os Espíritos que o amam o acompanham até o último momento,
encorajam-no, e muitas vezes até o seguem durante a vida.
343 Os Espíritos amigos que nos seguem durante a vida são
alguns dos que vemos em sonho, que nos demonstram afeição e se
apresentam a nós com aparências desconhecidas?
– Muito freqüentemente são os mesmos. Vêm vos visitar, assim como
visitais um prisioneiro.

sábado, 16 de julho de 2011

COMEMORAÇÃO DOS MORTOS. FUNERAIS


320 Os Espíritos são sensíveis à saudade daqueles que amaram
e que ficaram na Terra?
– Muito mais do que podeis supor; se são felizes, essa lembrança
aumenta sua felicidade; se são infelizes, essa lembrança é para eles um
alívio.
321 O dia da comemoração dos mortos tem algo de solene para
os Espíritos? Eles se preparam para visitar os que vão orar nas suas
sepulturas?
– Os Espíritos atendem ao chamado do pensamento tanto nesse dia
quanto em qualquer outro.
321 a Esse dia é para eles um encontro junto às suas sepulturas?
– Eles estão aí num maior número nesse dia, porque há mais pessoas
que os chamam. Mas cada um deles vem apenas pelos seus amigos e
não pela multidão de indiferentes.
321 b Sob que forma comparecem e como seriam vistos, se pudessem
se tornar visíveis?
– Sob a forma pela qual os conhecemos quando encarnados.
322 Os Espíritos esquecidos, cujos túmulos ninguém visita, também
aí comparecem apesar disso? Lamentam não ver nenhum amigo
que se lembre deles?
– Que lhes importa a Terra? Eles somente se prendem a ela pelo
coração. Se aí não há amor, não há mais nada que retenha o Espírito: tem
todo o universo para si.
323 A visita ao túmulo dá mais satisfação ao Espírito do que uma
prece feita para ele?
– A visita ao túmulo é uma maneira de mostrar que se pensa no Espírito
ausente: é a imagem. Já vos disse, a prece é que santifica o ato da
lembrança; pouco importa o lugar, quando se ora com o coração.
324 Os Espíritos das pessoas às quais se erguem estátuas ou
monumentos assistem à inauguração e as vêem com prazer?
– Muitos comparecem a essas solenidades quando podem, mas são
menos sensíveis às homenagens que lhes prestam do que à lembrança.
325 De onde surge, para certas pessoas, o desejo de ser enterradas
num lugar em vez de outro? Revêem esse lugar com maior
satisfação após sua morte? Essa importância dada a uma coisa material
é um sinal de inferioridade do Espírito?
– A afeição do Espírito por determinados lugares é inferioridade moral.
Que diferença há entre um pedaço de terra em vez de outro para um
Espírito elevado? Ele não sabe que se unirá aos que ama, mesmo estando
os seus ossos separados?
325 a A reunião dos restos mortais de todos os membros de uma
família num mesmo lugar deve ser considerada como uma coisa fútil?
– Não. É um costume piedoso e um testemunho de simpatia por quem
se amou. Essa reunião pouco importa aos Espíritos, mas é útil aos homens:
as lembranças ficam concentradas num só lugar.
326 A alma, ao entrar na vida espiritual, é sensível às homenagens
prestadas aos seus despojos mortais?
– Quando o Espírito já atingiu um certo grau de perfeição, não possui
mais vaidade terrestre e compreende a futilidade de todas as coisas. Porém,
ficai sabendo, há Espíritos que, no primeiro momento de seu
desencarne, sentem um grande prazer pelas homenagens que lhes prestam,
ou se aborrecem com a falta de atenção ao seu corpo físico; isso
porque ainda conservam alguns preconceitos da Terra.
327 O Espírito assiste ao enterro de seu corpo?
– Ele o assiste muito freqüentemente; mas, algumas vezes, se ainda
estiver perturbado, não se dá conta do que se passa.
327 a Ele fica lisonjeado com a concorrência de assistentes ao
seu enterro?
– Mais ou menos, de acordo com o sentimento que eles tenham.
328 O Espírito daquele que acaba de morrer assiste às reuniões
de seus herdeiros?
– Quase sempre; isso lhe é permitido para sua própria instrução e
para castigo dos culpados. O Espírito julga nessa hora o valor das manifestações
honrosas que lhe faziam. Todos os sentimentos dos herdeiros
se tornam claros como são de fato, e a decepção que sente ao ver a
cobiça daqueles que partilham seus bens o esclarece quanto a esses
sentimentos. Porém, a vez deles chegará igualmente.
329 O respeito instintivo que o homem, em todos os tempos e em
todos os povos, tem pelos mortos é o efeito da intuição de uma vida
futura?
– É a conseqüência natural dessa intuição; sem isso, esse respeito
não teria sentido.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

LEMBRANÇA DA EXISTÊNCIA CORPORAL


304 O Espírito se lembra de sua existência corporal?
– Sim, isto é, tendo vivido muitas vezes como homem, ele se lembra
do que foi, e eu vos asseguro que, às vezes, ri por sentir dó de si mesmo.
* Assim como o homem que, atingindo a idade da razão, ri das loucuras
de sua juventude ou das ingenuidades de sua infância.
305 A lembrança da existência corporal se apresenta ao Espírito
de maneira completa e de súbito, após o desencarne?
– Não, ele a revê pouco a pouco, como algo que sai de um nevoeiro,
e à medida que fixa sua atenção nisso.
306 O Espírito se lembra, com detalhes, de todos os acontecimentos
de sua vida? Ele alcança o conjunto de um golpe de vista
retrospectivo?
– Ele se lembra das coisas em razão das conseqüências que tiveram
sobre a sua situação de Espírito. Mas deveis compreender que há muitas
circunstâncias da vida às quais não dá a menor importância e que nem
mesmo procura delas se lembrar.
306 a Ele poderia se lembrar, se quisesse?
– Pode se lembrar dos detalhes e de incidentes mais minuciosos,
seja dos acontecimentos, ou até mesmo de seus pensamentos; mas quando
isso não tem utilidade, não o faz.
306 b Ele entrevê o objetivo da vida terrestre com relação à vida
futura?
– Certamente a vê e a compreende bem melhor do que quando encarnado.
Compreende a necessidade de depuração para chegar ao infinito
e sabe que em cada existência se liberta de algumas impurezas.
307 Como a vida passada se retrata na memória do Espírito?
É por um esforço de sua imaginação, ou como um quadro que tem
diante dos olhos?
– De ambas as formas. Todos os atos de que deseja se lembrar são
para ele como se fossem presentes; os outros estão mais ou menos vagos
no seu pensamento, ou totalmente esquecidos. Quanto mais se
desmaterializa, menos dá importância às coisas materiais. Fazeis freqüentemente
a evocação de um Espírito que acaba de deixar a Terra e verificais
que não se lembra do nome das pessoas que amava, nem dos detalhes
que, para vós, parecem importantes; é que já não lhe interessam e caemlhe
no esquecimento. Do que se lembra muito bem é dos fatos principais
que o ajudam a se melhorar.
308 O Espírito se lembra de todas as existências que precederam
a última que acabou de deixar?
– Todo o seu passado se desenrola diante dele, como as etapas percorridas
por um viajante; mas, como já dissemos, não se lembra de uma
maneira absoluta de todos os atos, lembra-se dos fatos em razão da influência
que têm sobre seu estado presente. Quanto às primeiras
existências, as que podemos considerar como a infância do Espírito, perdem-
se no tempo e desaparecem na noite do esquecimento.
309 Como o Espírito considera o corpo que acabou de deixar?
– Como uma veste que o apertavae sente-se feliz por estar livre dele.
309 a Que sentimento experimenta quando vê seu corpo em decomposição?
– Quase sempre um sentimento de indiferença, como por uma coisa
que não tem mais importância.
310 Após um certo tempo, o Espírito reconhece os ossos ou outros
objetos que lhe tenham pertencido?
– Algumas vezes, sim; mas isso depende do ponto de vista mais ou
menos elevado de como considera as coisas terrenas.
311 O respeito que se tem pelos objetos materiais que pertenceram
ao Espírito atrai sua atenção sobre esses objetos e ele vê esse
respeito com prazer?
– O Espírito sempre fica feliz por ser lembrado. O respeito pelos objetos
dele que se conservaram trazem-no à memória daqueles que deixou.
Mas é o pensamento que o atrai até vós e não os objetos.
312 Os Espíritos conservam a lembrança dos sofrimentos que
passaram durante sua última encarnação?
– Muitas vezes a conservam, e essa lembrança os faz avaliar melhor
quanto vale a felicidade que podem alcançar como Espíritos.
313 O homem que foi feliz na Terra lamenta-se dos prazeres que
perde quando a deixa?
– Somente os Espíritos inferiores lamentam os prazeres perdidos relacionados
com a impureza do seu caráter e que expiam por seus sofrimentos.
Para os Espíritos elevados a felicidade eterna é mil vezes preferível aos
prazeres passageiros da Terra.
* Assim como o homem adulto, que nenhuma importância dá àquilo
que fez as delícias de sua infância.
314 Aquele que começou grandes trabalhos com um objetivo útil
e os vê interrompidos pela morte lamenta, no outro mundo, por tê-los
deixado inacabados?
– Não, porque vê que outros estão destinados a terminá-los. Então se
empenha em influenciar outros Espíritos encarnados para continuá-los. Se
o seu objetivo na Terra era o bem da humanidade, continuará o mesmo no
mundo dos Espíritos.
315 Aquele que abandonou trabalhos de arte ou de literatura conserva
por suas obras o amor que lhes tinha quando era vivo?
– De acordo com sua elevação, julga-os sob um outro ponto de vista
e, freqüentemente, se arrepende de coisas que admirava antes.
316 O Espírito se interessa pelos trabalhos que se executam na
Terra pelo progresso das artes e das ciências?
– Isso depende de sua elevação ou da missão que deve desempenhar.
O que vos parece magnífico é, muitas vezes, pouca coisa para certos
Espíritos, que a consideram como um sábio vê a obra de um estudante.
Eles têm consideração pelo que pode contribuir para a elevação dos Espíritos
encarnados e seus progressos.
317 Os Espíritos, após o desencarne, conservam o amor à pátria?
– É sempre o mesmo princípio: para os Espíritos elevados, a pátria é o
universo; na Terra, a pátria está onde há mais pessoas que lhes inspirem
simpatia.
* A situação dos Espíritos e sua maneira de ver as coisas variam infinitamente
em razão do grau de seu desenvolvimento moral e intelectual.
Os Espíritos de uma ordem elevada geralmente fazem na Terra jornadas
de curta duração. Tudo o que se faz na Terra é tão mesquinho em comparação
às grandezas do infinito, as coisas que os homens mais dão
importância são tão infantis a seus olhos, que eles aí encontram poucos
atrativos, a menos que seja em missão com o objetivo de concorrer
para o progresso da humanidade. Os Espíritos de uma ordem mediana
se encontram entre nós mais freqüentemente; porém, já consideram as
coisas sob um ponto de vista mais elevado do que quando encarnados.
Os Espíritos vulgares são a maioria e constituem a massa da população
ambiente do mundo invisível do globo terrestre. Conservaram, com pouca
diferença, as mesmas idéias, gostos e tendências que possuíam quando
encarnados. Eles se intrometem nas nossas reuniões, nos negócios
e nas ocupações e nelas tomam parte mais ou menos ativa, de acordo
com seu caráter. Não podendo satisfazer às suas paixões, estimulam e
se deliciam com os que a elas se entregam. Entre eles, há alguns mais
sérios, que vêem e observam para se instruir e se aperfeiçoar.
318 As idéias dos Espíritos desencarnados se modificam quando
estão na erraticidade?
– Se modificam muito. Sofrem grandes modificações à medida que o
Espírito se desmaterializa. Ele pode algumas vezes permanecer por muito
tempo com as mesmas idéias, mas pouco a pouco a influência da matéria
diminui e vê as coisas com mais clareza. É então que procura os meios de
se aperfeiçoar.
319 Uma vez que o Espírito já viveu a vida espírita em vidas
anteriores, de onde vem seu espanto ao reentrar no mundo dos Espíritos?
– É apenas o efeito do primeiro momento e da perturbação que se
segue ao seu despertar. Mais tarde reconhece perfeitamente o seu estado,
à medida que a lembrança do passado lhe vem e que se apaga a
impressão da vida terrestre. (Veja, nesta obra, questão 163 e segs.)